Todo energético e desvenlafaxina do mundo
Mesmo no auge do meu sobrepeso, cheguei a conclusão que andar não é tão ruim, quando não se está atrasada. Posso ouvir música, tomar mais um energético e caminhar pela Avenida Santo Amaro num dia nublado enquanto os carros passam por mim. Fiquei pensando se um dia concordaria com a letra de “You Make Loving Fun” do Fleetwood Mac um dia de novo enquanto a música tocava nos meus fones e decidi voltar a escrever. Eu adoro a bassline dessa música e cheguei a conclusão que eu nunca concordaria com a letra dela de novo. Mas esse texto não é sobre amor.
Decidi comprar o energético superfaturado porque meu cérebro tinha virado suco na aula de contrabaixo: esqueci músicas que já tinha aprendido e não consegui aprender nada novo. Nada me dá mais raiva de mim mesma do que desapontar as pessoas e eu consegui fazer isso tantas vezes nas últimas semanas que talvez fosse uma boa ideia não ter mais contato com mais ninguém. Comecemos pelo meu professor de música: cancelei a aula da semana passada porque sabia que eu nunca conseguiria me concentrar sabendo que meu relacionamento terminaria após a aula. Volto uma semana depois, destruída, sem treino, errando tudo e desperdiçando seu tempo. Expliquei minha situação psicológica e pedi desculpas. Ele não tem a ver com meus problemas, disse que compreende e marcamos a aula da semana que vem com esperanças de melhoras.
Todos os dias, acordo pensando “vou ser uma designer melhor, uma baixista melhor, pois é o que eu gosto de fazer, são as poucas coisas que escolhi pra minha vida que eu realmente tenho prazer em desprender meu tempo”. Mas nem todo o energético desvenlafaxina do mundo são capazes de tirar de mim o desânimo de ser quem eu sou, de lidar com o que eu lido. Com a minha capacidade de estragar tudo e com a capacidade da de alguns membros da minha família de fazer o possível para que as coisas continuem indo assim – de mal a pior. Como melhorar de algo se o ambiente é o problema e você não pode sair dele? Segundo ponto: como resolver algo que não depende só de você?
Ah, succinato de desvenlafaxina monoidratado é indicado para tratamento do transtorno depressivo maior (TDM, estado de profunda e persistente infelicidade ou tristeza acompanhado de uma perda completa do interesse pelas atividades diárias normais). Não tomo só isso, mas é o principal. Digamos que é o que não me fez desistir, além da oportunidade de descobrir uma nova música incrível todos os dias, claro.
O fim do relacionamento dói, mas não é a pior coisa. O pior pra mim é conseguir tirar até o meu melhor amigo do sério a ponto dele não querer mais falar comigo. Talvez eu passe dos limites com a minha intensidade, mas eu não sei ser metade. Amar pela metade, me preocupar pela metade, ser sincera pela metade. Sinto muito – blues. Ele disse que eu preciso me tratar, como se eu não fizesse isso. Ah, eu me magoo muito também. Achei que ele soubesse. Não são só as coisas boas que eu sinto demais, queria que fosse. Às vezes a gente pensa que as pessoas nos conhecem, “fulano não diria isso pra mim, pois sabe como eu ficaria”, errado. Tudo bem, assumo meus erros, eu erro demais, mas não sozinha.
Ser ansioso-depressivo é um inferno. Às vezes parece que eu estou morta. O estado de entorpecimento é o melhor, para mim. Acho que para a maioria dos ansiosos-depressivos. Mas fica claro que não estamos ali e então temos que lidar com as perguntas, com os comentários, com a ignorância de quem acha que é tudo preguiça, má vontade ou puro mau humor. Não sentir nada – ou pelo menos achar que não estar sentindo – é quase libertador. Mas ao mesmo tempo traz um vazio enorme. Preferencialmente, estou optando pelo vazio. Melhor do que a dor.
Acontece que existem vazios e vazios… E você não pode obrigar alguém a entender o vazio que ela deixa em sua vida. Ninguém tem responsabilidade por você quando você é um adulto depressivo que tende a ser sincero demais. Eu me apego às lembranças e na verdade isso faz tudo doer mais, porque você percebe que tinha algo maravilhoso e estragou isso, querendo ou não. Ou, percebe também que você considera mais algo ou alguém do que o outro e isso dói – como se pudéssemos controlar o que o outro sente. Quando você é realmente depressivo… Às vezes a sua vida para. E a das outras pessoas continuam, sem você. Ninguém vai ter empatia por isso, porque todo mundo é substituível, sempre foi e sempre será… No começo as pessoas podem se preocupar, tentar ajudar, mas elas vão colocar a vida delas em primeiro plano – e quem pode culpá-las? – e você vai ficando, sozinha e sem saber o que fazer, buscando motivação em coisas quem já não existem… Coisas que as pessoas dizem ser boas para você, coisas que dão a falsa sensação de estar viva, como energéticos e desvenlafaxina.
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